A interação política por intermédio dos meios digitais estabeleceu um marco de referência na campanha presidencial de Barack Obama nos Estados Unidos – quanto a isso parece haver consenso. Mas, mais que uma questão de o campo político-partidário incorporar as novas tecnologias de comunicação, os novos canais e as formas de relacionamento adotadas na campanha representam implicitamente um convite à participação política mais direta do cidadão americano. Coerente com que vem fazendo até agora, a administração Obama deverá consolidar uma característica marcadamente interativa dos cidadãos. Para ajudar a entender as transformações em curso, a analista Natália Salgado Bueno, do Políticas Públicas em Foco, conversou em Washington com dois especialistas que acompanharam de perto as últimas eleições americanas. O primeiro deles é Sean Quinn, correspondente na Casa Branca do fivethirtyeight.com, site que se tornou uma das principais referências na cobertura da política americana, e Jorge Srur, especialista em modernização do Estado do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ex-subsecretário de desenvolvimento institucional da Câmara Provincial de Buenos Aires. Seguem abaixo os principais temas discutidos.
Tecnologia e mensagem
Segundo Quinn, o aspecto mais forte da campanha de Obama foi saber usar inteligentemente as redes sociais, como a criação do mybarackobama.com, assim como o uso inteligente de sites de relacionamento, como o facebook e myspace. O uso desse tipo de tecnologia para mobilizar voluntários, incentivar doações e organizar a campanha foi não só uma estratégia, mas uma necessidade. “Barack Obama não era um nome reconhecido, como o de Hillary Clinton e John McCain, de maneira que a interação online tinha a tarefa crucial de tornar seu nome em evidência.”
Para Srur, a campanha democrata mostrou que todas as ferramentas de mídia podem e devem convergir: TV, celular, internet. A página no site de relacionamento facebook, os vídeos no youtube, a propaganda na televisão, os folhetos, todos tiveram o mesmo foco e a mesma mensagem. “A campanha de Obama teve confiança na lógica da internet e das redes sociais nela presentes. Ao colocar uma página no facebook ou dar espaço à mobilização por ferramentas online, a campanha permitiu que a mobilização se tornasse mais descentralizada e horizontal. Voluntários e simpatizantes tiveram espaço para se mobilizar sem a direção e controle hierárquico dos organizadores oficiais da campanha.’’
De acordo com o analista do BID, não se decide de cima para baixo na internet qual será o fluxo da atenção. Pode-se simplesmente enviar o estímulo correto ao eleitor, a mensagem certa, e esperar o resultado. A campanha de Obama, segundo Srur, compreendeu a dificuldade em atrair a atenção das pessoas na internet – a média de tempo gasto num site nos Estados Unidos é de 55 segundos. Dessa maneira, abriu espaço para as pessoas interagirem pelo site – com eventos, criação de perfis e mensagens de compartilhamento de histórias. Optou-se por atrair a atenção do internauta mesmo que isso implicasse uma perda do controle da mobilização pelos organizadores da campanha. Para Srur, a campanha de McCain investiu pesadamente no aspecto técnico da internet, criou muitos blogs, mas não fez um uso inteligente do meio – os blogs e páginas ficaram isolados, como um arquipélago de hiperlinks redundantes.
Política online
Segundo Quinn, uma estratégia importante foi facilitar que as pessoas envolvidas na internet também se envolvessem com a política. Com apenas um clique, alguém que tivesse uma conta no facebook poderia entrar no grupo de Obama e ficar sabendo de festas e reuniões relacionadas ao candidato – tudo facilitado por ferramentas como googlemaps, calendários, reminders etc. No site, era possível entrar em grupos, selecionar os eventos na sua área geográfica, checar horários e até criar seus próprios eventos. No princípio, a idéia era simplesmente conhecer seus vizinhos e discutir a proposta de Obama. A parte de doação e do engajamento em mobilização veio depois que a mensagem do candidato já se encontrava estabelecida. Nesse sentido, analisa Quinn, a mensagem de Obama serviu de incentivo, inicialmente, à participação facilitada pela tecnologia e, posteriormente, a um engajamento mais forte, que envolvia doações.
Ainda segundo Quinn, a tecnologia foi importante, mas a mensagem de Obama era crucial. “Com o tempo, as pessoas aprendem a se organizar e começam elas próprias a se mobilizar. O mantra que se repetia nos escritórios de campanha de Obama era respect, empower, and include (respeite, dê poder, inclua)”. Quinn acredita que esse mantra era realmente incorporado pelos voluntários, que eram de fato as pessoas que coordenavam os escritórios.
Srur, por sua vez, pondera que a chamada sociedade da informação não é feita de um mundo somente virtual. Trata-se de uma sociedade real de pessoas. Dessa maneira, a campanha do Obama, ao colocar ênfase na mobilização de voluntários para bater nas portas dos vizinhos, organizar abaixo-assinados, fazer ligações, conectou a campanha “virtual” à “real”, tornando-a acessível aos não-usuários da internet.
Contato, mas com moderação
Segundo Quinn, a campanha de Howard Dean, pré-candidato democrata à Presidência em 2004, foi, em certo sentido, precursora da campanha de Obama em termos de uso de tecnologia e de ferramentas online. Em 2004, os blogs que se encontravam no centro da mobilização e do debate. A campanha de Obama aperfeiçoou o uso da tecnologia, com o foco em sites de redes sociais e grandes investimentos em tecnologia e organização de dados. A campanha de Obama tinha uma divisão inteiramente dedicada à organização e administração de dados.
A vanguarda na tecnologia não é, no entanto, uma característica dos democratas, destaca Quinn. Os republicanos fizeram uso de um telefone que gravava os números para os quais fazia ligações e os colocava num banco de dados. Tal tipo de tecnologia economizava tempo e era claramente mais eficiente do que os telefones e as fichas usadas pela campanha de Obama. Obama, todavia, fez um uso mais variado e inteligente da informação. “Se, por exemplo, você participa de um evento (como ver Obama e a apresentadora Oprah num comício), para conseguir o ingresso é necessário dar o seu endereço eletrônico. O seu e-mail é colocado no banco de dados e você passa a receber mensagens, com o cuidado de não mandar mensagens excessivas.” Outra ênfase da campanha foi o uso de mensagens de celular. Durante a Convenção Nacional do Partido Democrata, por exemplo, foi pedido a todos os presentes para enviar mensagens a cinco amigos, dizendo que eles estavam participando da convenção e pedindo a eles para ligar a TV ou se conectar de alguma maneira ao evento. “Em termos gerais, tratou-se de mais de uso inteligente da tecnologia.”
Em síntese, para Quinn, ainda que a tecnologia tenha sido crucial, não se pode deixar de lado o contexto e a mensagem. “Havia a percepção de que com Bush as vozes dos cidadãos não estavam sendo escutadas. Relativamente à mensagem de Obama, havia um candidato com uma mensagem clara, forte e inspiradora.”
Simplicidade e eficiência
Com relação à mensagem, Srur diz ser necessário que ela seja curta e simples, para ser capaz de atrair a atenção. Na campanha de Obama, a mensagem era sempre associada a imagens, uma reforçando a outra. E, muitas vezes, a imagem é mais importante para capturar a atenção do que o texto. A mensagem é incompleta sem a imagem ou sem o texto.
Para Quinn, os republicanos podem alcançar os democratas na tecnologia. “Resta saber se eles vão conseguir elaborar uma mensagem clara e forte. Obama mudou as regras de como a política será feita nos Estados Unidos e possivelmente em outros países. Nos EUA, em 2010, os ‘veteranos’ da campanha do Obama serão contratados por outras campanhas, além do mais, os voluntários terão adquirido certo conhecimento de como se fez na campanha do Obama, de forma que se pode esperar certa difusão dessa maneira de se fazer a política.”
Reflexos no mundo
Segundo Quinn, a avaliação do efeito de Obama em campanhas em outros países depende dos tipos de ferramentas de redes sociais, se as pessoas são capazes de se comunicar sem esforço e se essas ferramentas podem ser utilizadas para fomentar a mobilização. Segundo Srur, as condições para esse tipo de campanha, com o uso intensivo de tecnologias da informação, já existem nos países latino-americanos de forma geral. “A estrutura já existe, é uma questão de usá-la corretamente.” As principais ferramentas utilizadas por Obama, como facebook, myspace, e-mail, mensagens por celular, são muito populares na América Latina. “O uso inteligente da tecnologia da informação, em campanhas eleitorais assim como em iniciativas de e-government, exige que se conheça como as pessoas de cada país manejam a informação no dia-a-dia.”
Para Srur, é possível indicar algumas leis gerais, comprovadas na campanha de Obama:
- É mais importante o tipo e o foco da mensagem do que a tecnologia por si só.
- A mensagem deve ser simples e constante.
- Não se deve exigir muito das pessoas. A cada momento da campanha deve existir um pedido simples e claro e fornecer os meios simplificados para que possa cumprir esses pedidos.
Da campanha para o governo
Uma vez no governo, analisa Quinn, o projeto mais controverso relacionado à administração Obama é o Organizing for America, administrado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata. Trata-se de um projeto desenhado para apoiar o governo e mobilizar os cidadãos por políticas públicas e agendas de governo. Entretanto, oficialmente, não se trata de um projeto do governo Obama.
“O Partido Democrata tinha em mãos uma quantidade formidável de dados levantados durante a campanha, assim como uma organização montada que, com o fim da campanha, tinha futuro incerto. Dessa maneira, monta uma organização que ajuda a manter as pessoas ativas, agora em apoio ao presidente Obama e sua agenda. A percepção de Obama parece ser que suas promessas de campanha, especialmente questões relacionadas à saúde, só podem ser realizadas com o apoio e pressão dos cidadãos. O Organizing for America é então uma maneira de incentivar e apoiar grupos de campanha a se manterem ativos, como uma versão atualizada do que o presidente Roosevelt já falava mais ou menos assim: ‘Agora que eu estou eleito, façam com que eu faça isso’.”
Para Quinn, ainda não é claro o efeito do projeto em âmbito local e estadual, assim como se deve lembrar que o Partido Republicano não tem uma organização equivalente. Para o analista, uma organização como essa provavelmente gerará uma reação em cadeia, assim como fez a campanha que levou as pessoas a se organizarem em nível local e estadual. Afinal, a ênfase do Organizing for America é na mobilização local, nas vizinhanças e bairros, com as pessoas aprendendo a se organizar, ainda que o alvo sejam políticas nacionais.
Um exemplo do tipo de atividade do movimento é a organização de abaixo-assinados, como o de apoio ao projeto de orçamento enviado por Obama ao Congresso. De maneira semelhante à campanha, foram organizadas festas e reuniões para discutir políticas públicas e a agenda do governo, a princípio, sem pedir apoio explícito, mas para aprender a organizar e formar laços entre as pessoas.
“Trata-se de um projeto controverso porque, dado seu ineditismo, não se sabe quais são suas chances de sucesso. Além do mais, muitos podem dizer que eles elegeram os representantes justamente para não precisarem ser politicamente ativos fora de eleições.” Para Quinn, pode ser um teste da democracia. As pessoas se importam em gastar seu tempo na luta por políticas públicas? Outro aspecto potencialmente controverso é se essa experiência poderia ter resultados autoritários. Segundo Quinn, essa preocupação já foi expressa inclusive por ativistas e organizadores da equipe do Obama. “Uma resposta definitiva a esse tipo de conjectura é difícil, mas, devido ao passado de Obama como um professor de direito constitucional e à estabilidade dos 232 anos de democracia nos Estado Unidos, qualquer movimento nessa direção seria muito debatido e combatido. Além do mais, a idéia é de habilitar os cidadãos para que eles possam se organizar. A campanha mostrou que cidadãos com poder de organização não são passíveis de controle, uma vez que elas definem suas preferências. E a campanha foi um exemplo de organização eficiente cuja gestão era levada a cabo principalmente por voluntários.”
Quinn frisa que essa forma de atuação é algo semelhante à maneira como a internet funciona. Há muitos e diversificados inputs, sem controle hierárquico, mas com uma maneira horizontal de comunicação. “Ainda não estamos vendo claramente a forma mais perfeita disso, mas já testemunhamos o quão impressionante e essencial ela pode ser. Obama não poderia ter vencido de outra maneira.”
Transparência leva a mais transparência
Esse tipo de mobilização implica também a abertura do governo a seus cidadãos. Para Quinn, é difícil avaliar o governo de Obama em termos de transparência. “Mas é claro que o governo tem a transparência como uma preocupação, sendo que a própria palavra transparência tem sido usada mais freqüentemente, e o governo já teve algumas iniciativas, como o recovery.gov, que permite o acesso público e fácil à proposta de orçamento e de estímulo da economia. Um processo interessante é que, uma vez que o governo se mostra aberto a medidas de transparência, cada vez mais o governo é cobrado em transparência, mesmo que, se comparado ao governo Bush, eles já sejam mais transparentes. De qualquer maneira, Obama preserva as portas fechadas em certas decisões. É uma situação de equilíbrio como ocorreu na campanha. Apesar de muito inclusiva e aberta, a campanha era extremamente disciplinada e hierárquica em termos de controle da mensagem e do contato com a mídia.”
Futuro do governo
Com relação à tecnologia da informação no governo, o uso do telefone celular é chave para Srur, sendo provavelmente a ferramenta mais importante para conectar o governo e os cidadãos. Nesse contexto, a TV digital também pode ter um papel importante, uma vez que cada vez mais tem funções similares a de computadores e rápida entrada nos lares. “Em segundo lugar, as políticas públicas devem se aproximar das necessidades básicas das pessoas e facilitar suas transações. Esse tipo de inovação só será eficiente se os governos pararem de exigir comprovantes e documentos em papel, como se a transação eletrônica fosse menos segura ou parcial.”
Em termos dos níveis de governo, e-government apresenta diferentes potencialidades segundo Srur. Para governos locais, a ênfase deve ser nos serviços. “Cada vez mais, as pessoas desejam que os serviços públicos cheguem às suas casas como as compras chegam. A partir de uma transação online, o serviço é entregue. Além do mais, da mesma maneira com que nos enviam mensagens os sites, poderiam ser enviadas mensagens do governo sobre campanhas de vacinação, por exemplo. Essas ferramentas, associadas ao conhecimento que o governo já possui sobre os indivíduos, podem ajudar a focalizar políticas e serviços públicos.”
No nível federal, a prioridade, de acordo com Srur, está na integração dos sistemas de informação de diferentes agências. O custo para identificação ainda é alto nos países latino-americanos e são exigidas diversas identificações para diferentes processos e trâmites. Um sistema mais integrado simplificaria processos e diminuiria custos.
Desafios da interatividade
Das mudanças recentes, o mais importante, segundo Srur, é entender a mutação do fazer política. O voto e a participação, por exemplo, não precisam necessariamente se dar em momentos eleitorais, para a escolha de representantes. “Na internet, são feitas muitas consultas. O adolescente internauta, apesar de ainda na ter votado em eleições, tem muita experiência em votações e em fazer múltiplas escolhas. Ferramentas como o orkut e o facebook estão em constante mudança, sendo que o que parece mais permanente é a maneira como as pessoas se comunicam, de modo mais horizontal e com mais facilidades”, diz Srur.
Para Srur, a mudança está no modo como se faz política, tornando-a mais próxima do cidadão e, em muitos casos, exigindo mais do cidadão. “Isso implica um problema positivo: a necessidade de maior transparência, com uma cobrança mais sistemática e cotidiana do governo por parte dos cidadãos. Potencialmente, podem surgir problemas de muita demanda sobre o governo, que deve aprender como responder. Talvez este seja um dos principais desafios do Organizing for America. Formas de contato mais direto com o cidadão levam a questões de como ficam os partidos políticos e de como organizar o debate público. Os partidos, assim com o governo, terão que se adaptar. O debate público deverá se reorganizar.”


