Foco desta edição: Governo interativo                                                                                     Nº 4, Outubro de 2009

A reconstrução da área do World Trade Center

O atentado ao World Trade Center ocorrido em 11 de Setembro de 2001 gerou um esforço nacional sem precedentes no sentido de resgatar e reconstruir o local, de forma a mostrar ao mundo que os Estados Unidos e a cidade de Nova York possuíam capacidade de superar o trauma. Duas agências públicas ficaram responsáveis pelo projeto de reconstrução da área do World Trade Center: a Port Authority of New York and New Jersey (que havia sido, por muitos anos, responsável pela gestão do complexo WTC) e a Lower Manhattan Development Cooperation (LMDC), criada pelas administrações estadual e municipal após o atentado. Segundo Rosegrant (2003), a agenda dos dois órgãos era, em muitos pontos, conflituosa, principalmente pelo fato de a Port Authority ter como objetivo reconstruir o WTC no mesmo padrão anterior, como um intenso centro de comércio.
Em paralelo a esse arranjo, grupos da sociedade civil mobilizavam um debate público acerca da reconstrução. Dentre eles, destaca-se a Civic Alliance to Rebuild Downtown New York, principal envolvida no Listening to the City, que possibilitou que a população participasse do processo de decisão sobre a reconstrução da área. A Civic Alliance foi reunida por uma iniciativa da Regional Plan Association (uma outra organização da sociedade civil com mais de 80 anos de experiência em planejamento regional) e de algumas universidades.

Objetivo: A meta da iniciativa foi incluir a população na discussão das diretrizes de re-desenvolvimento do local do WTC e do seu entorno, a região de Lower Manhattan.

Funcionamento: A AmericaSpeaks, responsável pelo desenvolvimento da metodologia e da tecnologia do processo de deliberação de temas públicos por meio de grandes encontros presenciais, guiou a maior parte do processo. De forma geral, os participantes foram divididos em pequenos grupos de discussão, tanto nos encontros presenciais quanto na internet, para debater e votar propostas ou idéias a respeito dos temas envolvidos na reconstrução.
Nos encontros presenciais (ocorreram dois deles), os grupos de participantes – selecionados de forma a respeitar a diversidade da população – contavam com 10 a 12 pessoas e mais um facilitador, e a AmericaSpeaks disponibilizou laptops para que as questões formuladas e votadas por um grupo fossem divulgadas para os demais grupos. O primeiro encontro presencial do Listening to the City, realizado em fevereiro de 2002, contou com mais de 650 pessoas, entre cidadãos e experts. O segundo encontro, realizado em julho do mesmo ano, foi bem maior, contando com mais de 4.300 pessoas. Esse encontro foi patrocinado também pela Port Authority e pela LMDC, representantes do governo na questão.
Após o segundo encontro, houve um período de duas semanas em que foi instaurado um diálogo online. Cerca de 800 pessoas expressaram suas opiniões sobre algumas questões surgidas nos encontros presenciais. Nessa etapa, os participantes foram divididos em 26 grupos temáticos de discussão e cerca de 10 mil mensagens foram trocadas.
Ao final do processo, as propostas foram sintetizadas por analistas da AmericaSpeaks e enviadas aos gestores públicos envolvidos no processo de reconstrução do local do WTC. Como resultado, os gestores públicos envolvidos no processo, incluindo o governador de Nova York, repensaram as diretrizes que estavam sendo formuladas para o projeto do novo local do WTC – por exemplo, acataram a sugestão de diminuir a densidade comercial do local, transferindo algumas atividades comerciais para outros pontos da cidade.

Análise crítica: Um dos aspectos marcantes do caso se relaciona à dimensão simbólica do projeto. Como explicitado em documentos relacionados à iniciativa (Listening to the City, 2002; Rosegrant, 2003), o caminho para planejar a reconstrução de um local vitimado por algo que foi entendido como “um ataque à democracia” havia de ser o mais democrático possível. A tragédia de 11 de Setembro, por sua própria natureza, exigiu que o processo de reconstrução fosse feito de maneira aberta e democrática, e não guiada por valores de mercado, como se daria normalmente (Listening to the City, 2002). Destaca-se, ainda nesse sentido, o fato de as próprias instituições governamentais envolvidas no redesenho do WTC, a Port Authority e a LMDC, terem aderido a uma iniciativa que se originou no âmbito da sociedade civil.
Há dados do projeto que afirmam que, em julho de 2002, 4 em 5 participantes afirmaram estar muito satisfeitos, satisfeitos ou parcialmente satisfeitos com a qualidade do diálogo dos debates presenciais. Entre os que participaram do debate online, 84% estariam pelo menos parcialmente satisfeitos (Listening to the City, 2002).
Poderia ser apontado como negativo o fato de a participação nos encontros presenciais não ser totalmente aberta. Havia uma seleção dos participantes, a fim de garantir a diversidade da população. Não foram encontrados registros mais específicos de como se deu esse processo de seleção. Segundo alguns dos documentos consultados (Lukensmeyer e Brigham, 2002; Rosegrant, 2003), alguns grupos importantes da cidade foram sub-representados, principalmente se consideram os aspectos raciais.

Ficha técnica do Listening to the City
Responsável: Civic Alliance to Rebuild Downtown New York, um grupo que agrupa mais de 85 outras associações representando cidadão, empresas, organizações governamentais, universidades e associações da comunidade.
Escopo: municipal.
Parceiros: A Civic Alliance contou com o apoio da AmericaSpeaks, organização sem fins lucrativos que desenvolveu a tecnologia 21st Century Town Meetings, que possibilita discussões e deliberações de temas públicos incluindo um número considerável de participantes representativos da população. No segundo encontro do Listening to the City, a Civic Alliance contou com co-patrocínio e apoio da Port Authority e da LMDC. Na fase do diálogo via Internet, colaborou também a Weblab, organização sem fins lucrativos dedicada a criar processos inovativos de discussão de assuntos públicos na Internet. Diversos outros agentes (empresas e associações) apoiaram e financiaram o Listening to the City.
Data de criação e extinção: fevereiro a agosto de 2002.